1.7.09

psiu... - ou, sem comentários

holas.

dos imeios que recebi em reação à minha decisão de suprimir desta caxanga o campo de comentários, a maior parte acusa estranheza - "ué, e a interatividade?", "censura?" [sic].

já imaginava.
não que eu seja, digamos, bidu.
as gentes é que andam muito óbvias - e, logo, previsíveis.

contando com isso, já tinha em mente fazer uma postagem explicando a decisão, a qual, se será compreendida ou não, muito francamente, tipo foda-se.

a ela, pois.

sou um entusiasta da livre expressão e, logo, de todo e qualquer meio que a viabilize - e, não de hoje, o que mais há e o que mais surge são ferramentas e espaços para suas respectivas forja e exibição.

oba! aleluia! o odioso - porque imbecil - "u-hu!" e todos os salamaleques saudando a tudo isso.

mas...

sempre tem, com as cabiveis reticências, um mas.

por natureza, já não somos muito dados a pensar, o que, convenhamos, explica o $ucesso e a fama de uns e outras pelaí.
com tantos e novos brinquedos, noto, o troço piorou.

Henry Louis Mencken, jornalista estadunidense que, dos anos 20 aos 50, foi a voz e a consciência crítica daquele país - e que pra mim é e sempre será um farol -, afirmava que só podia ser completamente equivocada a didática escolar com a qual ensina-se as crianças a escrever antes de ensiná-las a pensar.

assino embaixo.

pré-revolução da comunicação, o blá-blá-blá já era nosso.
bastava um salão [de barbeiro ou de beleza], uma esquina, um táxi, um balcão de botequim, qualquer lugar que comportasse mais de um indivíduo, enfim, para que os mais variados gênios fizessem saber a todos - mesmo e principalmente a quem não queria saber - o que de brilhante pensavam que pensavam sobre os mais diversos assuntos, desde os mais complexos interesses e rictus que envolvem a economia, passando pela revisão de tudo o que Freud diagnosticou da mente humana, até o melhor horário pra se regar um canteiro de begônias.

como diria o saudoso sábio Mussum - salve, salve! -, "cacildis!"

contudo, abandonado o ambiente tornado "tribuna", adiós falsos renascentistas, ou legítimos e cabotinos pascácios.

hoje, na uébi, que é onde passamos a maior parte de nosso tempo, não adianta abandonar um ambiente, posto que, com um clique no rato, e anonimamente, esses boçais acima citados lhe [per]seguem - e pior: em 1 minuto, impingem tudo o que pensam que pensam sobre algum assunto que você gastou um tremendo tempo pensando no que dizer a respeito e ou elaborando a melhor forma de fazê-lo.

isso, mais do que falta de educação, é um chute nas gônadas - digo, pra mim, que percebo que o que se quer, em verdade, não é uma discussão, ou um - bleargh... - "debate", mas, sim, usar o raciocínio dos outros como mera escada, ou palco, para a projeção de cabotinismo pessoal, o que se pode comprovar pelo teor dos comentários expelidos, que quase nunca têm picas a ver com o assunto abordado numa postagem...

invariavelmente, estes tipos não têm um blogue, um çaite, porra nenhuma que não perfis criados exclusivamente para que possam pingar gotas de sua sapiência - e hectolitros de sua vaidade - nos mais diversos cafofos eletrônicos de terceiros.

fácil entender.

num espaço próprio, o gênio teria uma visibilidade X - a qual, considerando-se o que pensa que pensa, corresponderia, inicialmente, a uns 18 desavisados. depois de 1 mês, quando parte destes se desse conta de onde tinha caído [por acidente, frise-se], restariam uns 5; destes, 2 seriam alter-egos criados pelo próprio gênio pra 'rivalizar' consigo mesmo, gerando um acirrado "debate", assim fazendo os outros 3 - meio panacas, pode-se presumir - acharem que os plás do gênio geram "polêmica"...

entretanto, diariamente, o contador de seu cafofo o força a ver o fiasco de seu marquetim. então, o que faz o gênio? isso mesmo: parasita o maior número possível de caxangas alheias, conseguindo, enfim, uma bem maior visibilidade.

quando não é isso, o seguinte: atem-se ao tema da postagem, ao fazer o comentário - quase nunca menor que imenso, diga-se... -, mas, no final, touché:

- "Ótimo, isso que escreveu. Escrevi algo parecido no meu blog. Vai lá, se quiser. O endereço é...".

ou seja: publicidade, e só e fim.
publicidade pessoal, ou de seu [dele] blogue.

má notícia [para estes tipos]: eu não sou um autidór, tampouco meu blogue o é.
logo, não mais tratados narcísicos travestidos de "comentários".

antes, quando minhas gônadas estavam menos infladas, ainda me prestava a moderar, ou mesmo rejeitar comentários, o que nunca fiz sem, antes, ler tudo, algo que me fritava os grãos.
agora, não mais.
deu.
cansei dessa merda toda.
cabô.

até pensei no prejuízo embutido no silêncio que, por invevitável extensão, foi imposto às pouquíssimas gentes cujas mentes e bocas não são, respectivamente, privadas cheias e canos hidráulicos travestidos de megafones. mas, depois, pensando bem, lembrei-me que taí ao lado, no menu, um meu imeio para contato.
quem quiser, sinta-se à vontade.

a supressão do campo de comentários visa a conter o, digamos assim, impulso opinativo, e, logo, emissão de idéias elaboradas não a partir dos fatos, mas da demanda por atenção dos gênios.

ora, vão se foder - e literalmente, digo, pois estão precisando de alguma outra forma de prazer além do obtido com esse onanismo pseudo intelectual.

a supressão é, ainda, creiam-me os leitores com algum interesse no que escrevo, a única forma que vejo de não desistir de vez de manter esse espaço; logo, apesar do radicalismo inerente à decisão, considerem tudo como uma legítima demonstração de apreço e respeito para com vocês.

com tantos meios para propagação da liberdade de expressão - e me oponho ferozmente a qualquer um que se ouse a limitá-los, assim limando inclusive os gênios -, natural que o volume de informação se tornasse desmesurado.

mesmo assim, tá tudo certo, tá tudo bem.
a solução é cada um escolher o que quer saber e, muito importante, de quem quer saber.

felizmente, há muitos e tantas que produzem informação sobre os mais variados pontos que são de meu interesse, e o fazem muito bem, com o que, por ora, não me sinto apto a elencar "favoritos"; no entanto, me é fácil, e muito, escolher do quê - e de quem - não quero notícia.

interromper o acesso destes ao átomo de universo virtual que ocupo me é um bom começo de resistência a estes que da revolução de comunicação tiraram e cultivam apenas aquilo que de tão execrável esta compreende: um excesso de informação muito superficial - quando não apenas demente - sobre assuntos tão profundos quanto variados - e ainda pior: um inigualável e incontrolável poder de propagação da cretinice, da mediocridade e, último, mas não menos desagradável, da chatice que essa gente representa.

não acredito, nem nos raríssimos dias em que aquilo que ainda me resta de melhor me inunda de otimismo quanto a nós [como espécie e, quá-quá-quá-quá!, como povo], que, ainda que em escala milimétrica, nos aproximaremos da lógica proposta por Mencken, de aprendermos a pensar, primeiro, para só então, falando ou escrevendo, expressarmos o que se nos vai pelos miolos.

pessimista, eu?

olha em torno e me diz:
quantas ferramentas têm sido criadas para expressão?
impossível contar, confere?
e quantas já foram criadas para estimular a reflexão?
impossível apontar umazinha que seja, pois não?

sem comentários, né?

aqui, também.

escrevo com o intuito de provocar reflexões, não discussões.
simples assim.

hasta.

26.6.09

michael jackson morreu há muito tempo

Michael Jackson morreu pouco depois de lançar e promover o esplêndido álbum "Off The Wall", do qual faz parte a música do clipe que encerra esta postagem.

até essa época [1979], era ouro em estado puro, genuíno como a alegria que, note, emanava de cada expressão e de cada movimento seu.
alegria que, diga-se, nunca mais foi espontaneamente expressa - apenas, algumas vezes, interpretada - em sua carreira.

a partir de Thriller, tornaria-se o, em todos os sentidos, monstruoso produto Michael Jackson.

tudo bem, até Bad, o produto manteve certa qualidade, além de vigor, mas, assim como Thriller, já completamente manipulado e embalado para vender - e muito, para compensar os altíssimos custos do investimento.

mas perdeu, como produto, a legitimidade e a espontaneidade indispensáveis a um verdadeiro artista, como ele o foi.

chato.

produto tem validade.
logo, uma hora, um dia, haveria de deteriorar-se, não importando quanto lhe fosse aplicado de conservantes e corantes - ou, em seu caso, descolorantes...

ontem, o produto deteriorou-se por completo.

melhor assim - e não apenas para ele.

já estava fazendo mal só de vê-lo, que dirá - no pior sentido da palavra - consumi-lo.

acredito que quem o admirava e respeitava genuinamente, a partir de agora se sentirá finalmente livre de associar a lembrança de sua arte à tristeza embutida na embalagem que, profissionalmente, aceitou vestir, bem como àquela que, para sua vida pessoal, ele próprio confeccionou - e ambas geraram fabulosos lucros para seus feitores...

sempre gostei do artista Michael Jackson.
e muito.
mesmo.

então, em feitio de respeitosa homenagem e agradecimento - sua arte, afinal, inspirou-me aos melhores sentimentos em vários dos bons momentos de minha vida -, fica ai o registro um de seus mais sublimes momentos - e o melhor: eternizado pelo poder que a verdadeira arte possui, algo que, cruel ironia, ele parece ter ignorado, ou esquecido, ao dedicar-se exclusivamente a eternizar a sua juventude física, o que conseguiu, mas de forma grotesca, bizarra, ao que, claro, compreendeu sua ruína, mais que profissional, pessoal.

a geração a que pertenço teve o privilégio e o prazer de testemunhar o seu auge artístico, e isso confere um sentido todo especial à lembrança que temos e sempre teremos dele.

valeu, Artista.
ô se valeu.
clap, clap, clap!



°°° ps: a partir de hoje, está extinto o campo de comentários neste blogue, o que explicarei depois, noutra postagem.

22.6.09

mondo pirata 6 - ulalá!

holas.

correria braba...

entonces, fica pra logo mais a apresentação do novo 7 musical de mondo pirata - desta vez, só músicas pra se cantar - e se ouvir - fazendo beicinho.

vive la France!

por ora, permitam-se ulalás! ouvindo o programa enquanto navegam por çaites e blogues outros.

ô revuá.

18.6.09

mondo pirata 5 - concluindo

holas.

bóra, então, finalizar a apresentação do 7 musical da presente edição de mondo pirata.

°°° à faixa 15, continua a influência de Bob Dylan, pois T-Bone Burnett, na década de 70, excursionou com Dylan, abrindo os chôus deste - e, claro, absorvendo seu mojo criativo.

terminada a turnê, uniu-se a alguns dos músicos da banda que então acompanhava Dylan e com estes formou a Alpha Band, cujo repertório era o creme da música redneck, na linha da canção aí disponível.

mas foi nos bastidores, como produtor, que Burnett teve maior êxito, e anote aí alguns de seus pupilos e ou trabalhos, pra ver o dedinho de Midas do caipirão do Missouri: Counting Crows [o mega hit "Mr. Jones" te diz alguma coisa?], Los Lobos, Elvis Costello, Wallflowers [banda do filho de - tchã-rã! - Bob Dylan] e o álbum que, este ano, papou todos os grammy a que teve direito, aquele em que Allison Kraus e o ex-Zeppelin Robert Plant - abaixo, é ele, não a "nossa" Wanderléa com postiço cavanhaque... - trinam apenas música caipira, obra sobre a qual já falei noutras edições.

°°° à faixa 16, Creedence, que só mesmo quem andou levando uns bois a Júpiter nos últimos 50 anos precisa saber de quem se trata e da importância desses 4 caipiras para a música pópi, especialmente ao rock - e, como me recuso a perder tempo com tais alienígenas, só o que digo, cuspindo o fumo mascado e apertando a tecla sap, é:

- bão demais da conta, sô.


ouça, à faixa 17, Black Rebel Motorcycle Club interpretando mais uma pepita do esplêndido álbum Howl, e resista, se puder, a exclamar:

- bão tãmem!


°°° oooops...
silêncio no salum, évibari.

chegando, à faixa 18, Bruce Springsteen, o poderoso chefão do folk rock [e olhe que nasceu em New Jersey, a léguas de distância dos berços desse tipo de música - sem falar que Frank Sinatra nasceu lá...], mas, rú nous, vai ver as muitas vacas que embelezam os campos de NJ o inspiraram ao gênero.

não só, claro.

afinal, sejamos justos com Johnny Cash e - dããã... e sorvete na testa - Bob Dylan.

patriota, politizado, roufenho e amado pelos operários que tanto homenageia em suas composições, tivesse nascido um continente abaixo, seria outra, quiçá, a sua história.

durão, mas do tipo os brutos também amam, quando o negócio é compôr baladas [como essa aí do programa] e ou canções com pegadas vigorosas, com voz idem em ambas, não tem pra ninguém - tanto que, por um período, ofuscou o próximo convidado desta edição.


°°° com vocês, John Cougar Mellencamp, que por um tempo, pra fugir das comparações, serviu ao rock, mas a coisa ficou esquisita, porque meio bon jovi - êta, botina! -, mas, rapidamente, passou a dedicar-se ao country rock, gênero do qual tornou-se excelente referência, e a faixa 19 mostra por quê.

oiça lá.


°°° à faixa 20, uma reedição da história do gênero a que esta edição é dedicada se dá com o bonito dueto do britânico Billy Bragg com os estadunidenses da banda Wilco.


°°° Bill Callahan é um dos meus mais recentes heróis de infância.

tá, tá bom, ficou meio forçado isso, sei.
até porque ambos temos 42 para 43 anos...

reformulando:
gosto muito deste sensível bruto.
pronto.
paradoxos à parte, melhorou a definição de meu apreço?

Bill tem dois grandes talentos: com seu rude charme de ex-jardineiro, encantar e seduzir semi-deusas - a última foi a tetéia do folk, Cat Power [foto], tá bom procê? - e, depois que o amor se revela finito, compôr canções pra macho sofrer sem que isso pareça aquele inescrutável e uniforme sentimento tão caro aos descolados fãs do irlandês Damien Rice, ou, em casos ainda mais patéticos, aquela coisinha blasé e ensopada tão indispensável às poses de esquálidos emos...

Bill tornou-se, pois, um esteta da arte de compôr músicas ideais para se ouvir ao fim de um relacionamento - e o melhor: sem que, apesar da dor, se queira cortar os pulsos, como nos inspiram a fazer, ainda que de mentirinha, as canções de... Damien Rice...

mas, em seu mais recente disco, "Sometimes I Wish We Were an Eagle", Bill se nos apresenta menos vulnerável às agruras de um fim de caso, talvez porque, depois de tantos, tenha se tornado mais cascudo, mas não menos poético e melódico, o que, acredito, é o que faz com que suas atuais músicas se tornem perfeitas para se ouvir ao fim de um relacionamento, mas, também, quem sabe, com igual efeito, para se começar um novo - afinal, que passarinhos são esses a que, com seu bonito vozeirão de barítono, ele se refere nessa bonita canção, à faixa 21?


°°° na faixa 22, Bon Iver demonstra o que o já citado Damien Rice poderia ser se não se levasse tão a sério - pero sin perder la ternura, por supuesto -, ou, sei lá, se seus fãs não o levassem tão a sério, causando uma afetação que, decididamente, só tem feito comprometer um grande talento.

°°° olhe bem a foto acima.
repare o penteado tipo Mary Rose, a dona do salão ali da esquina, foi quem fez.
o vestido revelando apenas o suficiente para um Billy Boy Robert da vida sentir-se atraído, mas sem pensar nada que o leve a ajoelhar no milho, depois.
o sapato que faz a donzela caminhar de modo algo sensual, mas nada vulgar.

certo.

agora, contextualizando:
anos 50.
um bar qualquer em Oklahoma City, no qual rolam uns chôus. casa cheia.
na platéia, misturados, capiaus há anos rompidos com o barbeiro - alguns, também com o chuveiro... -, todos fãs, digamos, do Willie Nelson, e um punhado de adolescentes com rocambolescos topetes armados com gel fixador, jaquetas de couro, fazendo cara de mau, numa débil tentativa de ficarem parecidos com seus ídolos de então, Elvis Presley e Eddie Cochran, reis do rock e do rockabilly, respectivamente.
lhes é anunciada a tal Wanda Jackson, cujo nome leram à porta da espelunca, imaginando ser uma dançarina do tipo honky tonky girl.

nã-na-ni-na-não.

entra a brejeira e miúda morena da foto.

climão.

enquanto os capiaus pensam se, com tantos litros de bourbon nas cacholas, teriam entrado não em um bar, mas numa igreja, e os jovens Elvis e Eddies pensam tratar-se de alguma representante da Avon, a qual, depois de cantar um jingle da gigante dos cosméticos, vai lhes mostrar uns batons, cremes e perfumes ideais para presentearem suas namoradinhas, Wanda, que de boba nada tem, pisca para a banda que a acompanha e começam a tocar alguma de suas canções em que mistura country music ao rockabilly, um petardo sonoro que, pouco depois, consagraria a sua carreira, tornando-a a única mulher a ocupar o mesmo espaço já bem ocupado por - ó procê vê, sô - Elvis e Eddie.

não é nada difícil imaginar, passada a perplexidade da platéia, capiaus batendo calcanhares, arremessando chapéus ao teto, e garotos trasformando seus topetes em chicotes, todos alucinados pela elegante tampinha de Oklahoma.

basta ouvir a faixa 23.

hoje, aos 77 anos, continua em sua terra natal, sacudida e sacudindo - no caso, imagino que os pescoços dos búfalos e corcéis que laça a cada vez que estes se ousam a tentar fugir do rancho onde mora, ou, quem sabe, munida de uma providencial vassoura, botando pra correr aquele urso marrom que teima em querer roubar as tortas de maçã que ela deixa esfriando à janela, algo assim - ou vai me dizer que, ouvindo-lhe a música, sabendo-lhe o pioneirismo comportamental, você taí, lúdica e ingenuamente, visualizando-a a fazer tricô no alpendre, ou, sei lá, assando uns biscoitos para os netos?

tsc, tsc...


°°° à faixa 24, a caipirinha de tão negra e bela voz, Janis Joplin, e só e fim, mais não digo - e precisa?

pssssiu!
ouça Janis.


°°° óia, durante muito tempo, me perguntei o porquê de tantos e muitas taxarem a Tracy Chapman ora de brega, ora de chata, e nunca cheguei a uma conclusão.

desisti.
tipo foda-se.
pra quê discutir com idiotas, afinal?

melhor permitir-se a beleza de seu violão tão bem tocado e a delícia de sua voz tão linda em canções idem, quase sempre versando sobre questões da mais relevante importância - aqui, à faixa 25.


°°° à faixa 26, outra reedição histórica, agora com a inglesinha Holly Golightly - sim, a admiração de sua mãe pela elegantérrima personagem de Audrey Hepburn em Breakfast at Tiffany's [por aqui, Bonequinha de Luxo] era tal, que batizou a pimpolha com o mesmo e divertido nome -, mas, voltando, a inglesinha que tanto gostava de Joni Mitchell e indie rock, fazendo uma boa mistura disso, depois que casou-se com um músico caipira estadunidense, mandou as roupas elegantes, o penteado e o jeitinho idem para o fundo do Tâmisa, calçou botinas, cobriu-se de vestidinho florido com renda na gola e nas mangas, jaqueta jeans surrada, desgrenhou os cabelos, botou chapelão por cima e, no melhor estilo Família Buscapé - tali e quali o maridão -, mergulhou fundo no country e no bluegrass, mas, danada, mostrou que só relaxou na aparência, mas não em sua incrível capacidade de tornar qualquer canção deliciosamente assobiável - e o que é, que não isso, o que de melhor se tem com a música pópi ?


°°° à faixa 27, Cowboy Junkies levam a urbaníssima "Sweet Jane" para tomar umas brejas nalguma espelunca frequentada por caipiras canadenses, e o resultado revela que as composições de Lou Reed, além de atemporais, contam histórias boas de se ouvir em qualquer lugar do planeta, não apenas nos porões, puteiros e subúrbios de sua Nova Iorque.

Tchekov, ao dizer que "para ser universal, cante a tua aldeia", sabia o que estava falando.


°°° à faixa 28, a banda que já foi chamada de "Nirvana do country", o que, óbvio, é um baita elogio, mas a turma da [lamentavelmente] extinta Whiskeytown, no que se refere a influências musicais, está menos para o grunge de Seattle e mais, muito mais, para o punk rock nascido no lendário club estadunidense CBGB e crescido e amadurecido nos inferninhos londrinhos.

caipiras, mas punks, ou, por vezes, punks, mas caipiras [logo, mais sentimentais] - caso desta faixa quase melancólica [justificando, pois, a comparação com o Nirvana], mas sem a fúria e o sarcasmo comuns aos punks, algo que os próximos kmaradinhas deste 7 cumpriram deliciosamente bem.


°°° seguinte: Cracker é uma boa banda estadunidense de rock, com seus integrantes tendo em comum o apreço pelo punk rock e - vivas! - pelos proto-punks Stooges.

comum a todos, ainda, as origens caipiras - o que, um dia, duma brincadeira, resultou na criação de uma, digamos assim, alter-banda com a qual passaram a se apresentar.

foi assim:
no estúdio, gravando o próximo álbum da Cracker, pausa para cigarros, goles e um descanso.
começaram a conversar sobre mullets, aqueles ridículos tufos de cabelos laterias que rednecks adoram usar, tipo chitãozinho e xororó versão anos 80, manja?
papo furado vai, bullshit vem, a dúvida:

- como seria se a gente resolvesse fazer aquele som de nossas raízes?
- podemos tentar fazer, pra ver.

castigaram uns "clássicos" da country music - e, eita!, gostaram o suficiente para decidir que se apresentariam em alguns lugares tocando aquilo, mas com outro nome para a banda.
e Ironic Mullets foi o escolhido.

começaram tocando em bodegas honky tonky frequentadas por capiaus com os instintos e os modos de um bisão, que, portanto, quando viram aqueles kmaradinhas com modos e modas tão urbanas, devem ter pensado: "fagets..."

bastou as "bichas" começarem a tocar, porém, pros brutos se verem forçados a conter o impulso de lhes saudar como a "iguais".
e expressaram sua satisfação à sua moda: marcando o som batendo as botas no piso, batendo - e quebrando - copos e garrafas em vigorosos brindes, batendo os chapéus nas coxas - e, claro, urrando o brado típico:

- iiiiiiiiiiiiiiiirrrrrrrrrrrrrraaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!

e assim foi com outras platéias, noutros - e totalmente diferentes entre si - lugares, com o que, claro, animaram-se a profissionalizar a coisa, para o que conversaram com sua gravadora, virgin records, que adorou o projeto, autorizou-o, e ao trabalho, rapazes!

foram.

terminadas as gravações - 9 covers dos tais "clássicos", rolou aquele furdunço em NY, torres gêmeas transformadas em paus de fósforos queimados, tal e cousa.
a gravadora, na enésima vez que ligaram pra saber o que é que tava pegando pro disco não sair, atendeu, dizendo, na bucha, o seguinte:

- o momento não é propício para esse tipo de música, esqueçam!

"uóra fóqui this fóqui pípou are fóqui talquim abauti?" - se perguntaram.

desistiram de tentar entender.
tipo foda-se.
"criamos um selo e lançamos nós mesmos dis fóqui tingue"

e assim foi feito.

mas, detalhe [que, dizem, é onde mora o demônio]: não sem antes incluir uma única música inédita, composta como especial 'resposta' à fóqui gravadora e suas obtusas fóqui gentes.
e o fizeram à sua moda, misturando elementos [verbais] do punk rock a elementos [sonoros] da country music, e o resultado - estupendo, porque divertido, anárquico e ainda melódico, com riffs e refrão de deliciosa e fácil assimilação - é esse, à faixa 29, em que perguntam às fóquis gentes da virgin por que não se prestam a um auto-felatio e, pra variar um pouco, a um auto-cunnilingus.

permita-se.
muito e sempre.

°°° permita-se, igualmente muito e sempre, Tom Waits.

por que?

ora, porque o Tom Waits é do caraio, sô!

ufa.
kbô...

quem quiser, curta mais um cadinho essa edição, que ficará no ar até domingo, pois, segunda, te lo juro, nova edição de mondo pirata, e, desta vez, música para se cantar - e, até, se ouvir - fazendo beicinho.

não, nada a ver com trilha sonora pra se ouvir vendo um dvd produzido com os melhores momentos - se é que os há... - do gilmar mendes em sessões do stf...

mas, justiça se lhes faça, no julgamento da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo, foi pontual, cumprindo bem o seu papel de servidor público [que, afinal, é o que ele é, sendo todo o resto mera pose].

aliás, sobre esse papo só tenho a dizer o seguinte: o bom profissional, com ou sem diploma, faz um bom trabalho.

inadmissível mesmo, a meu ver, é, numa dita democracia, e ainda envolvendo liberdade de expressão, esse negócio de obrigue-se isso, proiba-se aquilo outro.

mas, claro, esperar coerência do phoder quem ainda haverá de?

hasta.

ps - ao longo do final de semana, papo reto, responderei a todos os comentários aqui feitos nos últimos 15 dias.

y tengo dicho!

14.6.09

mondo pirata 5 - continuando [2]

holas.

terminei a última postagem sobre o atual 7 musical de mondo pirata contando que Ray Charles [faixa 6] escolheu interpretar músicas caipiras para dar um sacode em sua já bem sucedida carreira por acreditar que, neste gênero, as canções têm histórias boas de se contar, com as quais as gentes se identificam.
















ele só podia estar se referindo, por dois exemplos, às canções de Johnny Cash [faixa 3], que elevou a música caipira estadunidense à condição de arte, e, certeza, na batata, se referindo às composições de Woody Guthrie [foto], o mentor não apenas de Cash, como, principalmente, de um outro caipira, o qual não só corroborou o que Charles disse sobre a questão das letras contando boas histórias, como tornou-se, para a folk music, o folk rock, o country rock e também para o rock, aquilo que Woody fora/foi para a country music: referência maior.

com vocês, o judeu caipira, o homem que forneceu o primeiro baseado para os Beatles, no dia em que estes foram receber umas comendas daquela senhora que usa uma coroinha por sobre uma espécie de capacete capilar, o auto-didata que ensinou Mick Jagger a tocar gaita - antes de vê-lo bem de pertinho num chôu, Mick apenas assoprava a coisa... -, o cara que, com poucas e precisas palavras, peitou e colocou o obtusamente intocável andy warhol em seu devido lugar - pendurado, de cabeça para baixo, no galho dalguma árvore, limando as presas, à espera do próximo talento a $ugar:

Bob Dylan.

como isso aqui é um blogue, não o esboço de uma biografia - que é o que seria necessário para escrever sobre esse cara -, melhor fazer o seguinte: ouvi-lo, à faixa 7, interpretando um de seus clássicos, bem como à faixa 8, acompanhado de George Harrison, Tom Petty e Jeff Lynne [todos, de alguma forma, influenciados por ele], mais o seu chapa Roy Orbison, formando a ótima - e, com as mortes de Orbison e Harrison, extinta - banda Traveling Wilburys, um tubo de ensaio no qual os mais variados elementos derivados da música caipira, depois de misturados, transformaram-se em pepitas sonoras de altíssimo quilate.

° em tempo: como acho um pé nos ovos essa sacralização de gente do pópi - genial, sim, mas gente, e, portanto, imperfeita - , duas notinhas para, digamos, humanizar o cabra.

Rubin 'Hurricane' Carter, o boxeador negro que foi condenado à prisão perpétua por um assassinato que não cometeu - o que foi provado apenas em 1985, 19 anos depois de meterem-no na tranca dura -, que inspirou Bob à composição dessa jóia musical, sempre disse com todas as letras que Bob, nesse caso, teve o seu momento andy warhol, pois, passado o clamor popular pela sua [dele, Rubin] libertação, estourada a canção, Bob, ó, blowin' in the wind...

a outra e última notinha tem o testemunho deste capitão gôche, e, logo, sinto-me muito à vontade para adotar um tom bastante pessoal para narrá-la.

aí, Beto, lembra aquele seu chôu, nos anos 90, no Mineirinho, em BH, no qual, mais mal-humorado do que um tio velho em furiosas crises de hemorróida, ocê atirou uns copos de cerveja na turma do gargarejo, entre a qual eu me incluía?

pois é.

aquele isqueiro que - azar - acertou o suporte da tua gaita, livrando teu narigão de um merecido hematoma, atirado logo depois de um bem sonoro "FUCK YOU, ASSHOLE!", fui eu quem atirou, não a garota que, ainda mais escroto, ocê apontou e, ao microfone, chamou de "ugly bitch".

pronto, agora sim, devidamente alinhados num mesmo e humano patamar - ainda que pelo que de pior a espécie tem a oferecer -, voltemos ao 7 musical.

sem Dylan, difícil saber como seria o som das gentes que, mundo afora, em maior ou menor grau, influenciou. exemplos:

às faixas 9 e 14, respectivamente, os seus conterrâneos da atualíssima banda Wilco e o precoce e tragicamente falecido Jim Croce, o canadense Neil Young à faixa 10, o inglês Yusuf Islam, que, antes de converter-se ao islamismo, atendia por Cat Stevens [faixa 11], seguido pelos escoceses de Belle & Sebastian, e, à faixa 13, o australiano Nick Cave interpretando uma música de seu mais recente disco, no qual abandona o tom sobrio de suas composições, bem como o timbre idem com que as expressava, nos revelando um seu lado, digamos, alegrinho, ou, no mínimo, mais irônico - e, quer saber? ficou ótimo.

vai ver, sei lá, os 12 anos em que morou no Brasil, em São Paulo, serviram pra lhe mostrar que não vale mesmo a pena levar-se tão a sério.

por ora, détis au, fólquis.
durante a semana, ai suér, volto pra acabar qüisso.
e pra responder aos comentários aqui feitos.
até quarta, no máximo.
até porque, na quinta, outra edição de mondo pirata entrará no ar.
dessa vez, só música pra se cantar - e, até, se ouvir - fazendo beicinho.
te aguenta aí.

raiôu, Çilver!

ps - é a última foto que publico de um dia em que, não fossem 2/3 de uma garrafa de um bom whisky, eu teria causado estragos no salum...

hasta.

5.6.09

mondo pirata 5 - continuando

holas.

retomando a apresentação do set de black & white - and red[necks].

1961.

Ray Charles já era um astro mundial da música, o que conseguiu graças à belíssima voz, ao carisma ímpar e, claro, à mistura do gospel ao blues, mais pitadinhas de boogie woogie, resultando numa massa sonora capaz de ora enlevar sentimentos e espíritos, ora sacudir até mesmo os mais calcificados esqueletos, e que, por tudo isso, influenciou punhados de músicos, cantores e cantoras nos anos 60, todos representando a soul music.

daí que, ó procê vê, quando ele disse aos executivos de sua gravadora que estava na hora de dar uma guinada na carreira, para o que gravaria música caipira, estes, com outras palavras, argumentaram que ele era cego também comercialmente, que não se troca o certo pelo duvidoso, coisa e tal, aqueles plás, então...

nop!

Ray, depois de deixar bem claro que o que não lhe faltava, naquele momento, eram gravadoras desesperadas para que ele lançasse com elas, se quisesse, um disco inteiro de canto gregoriano, ou até mesmo 38 variações do "Bife" para órgão e flauta doce, justificou a sua proposta:

- essas canções contam boas histórias, com as quais as pessoas se identificam.

caipira da Georgia, sabia o que estava falando.

e, mesmo, desde sempre até hoje, uns 90% das gentes dos EUA são o quê?

yeap! na mosca: caipiras - sejam estes nativos ou imigrantes.

entonces, se o busílis era o bísinis, sua idéia lhe parecia potencialmente rentável.

sem trocadilho, vai vendo.

Don Gibson. já ouviu falar?

ô, gente, encabula não, sô...

faz muito que nem nos EUA o muchacho tá na boca do pessoal.

em compensação, de 1962 até a eternidade, uma sua composição...

Don teve a sorte, muita, de ter composto uma canção que Ray adorava, a qual decidiu, depois de lhe aplicar o seu molho musical, adotar como ponta-de-lança de sua nova fase musical.

e gravou "I Can't Stop Loving You", 6ª faixa desta edição.









o resto é história.

détis au, fólquis.
segunda-feira, discoteclo mais dessa edição procês.
quando terminar todos os textos sobre esta edição, responderei a todos os comentários, está?
ó, até domingo, no máximo, chegará em sua caixa postal eletrônica uma - hosanas! - nova edição da Pirata Zine em sua versão imeio, apenas para assinantes - para assinar, siga as instruções, no menu ao lado, no alto, logo abaixo do meu perfil.
ah, e essa foto aí ao lado?, cê deve tá se perguntando.
uél, dá pra ficar apenas na informação de que, entre o chapéu e a minha testa, por dentro, tinha uns 2/3 de uma garrafa de whisky [mamma mia, que dia...], e que só a publiquei aqui pra, digamos, aproveitar o contexto?
tenquis. ai çi iu leirer.


°°° está apenas imperdível a cobertura que a Clarice Maia fez da edição mineira do Mega-Não ao AI-5 Digital a que corresponde o projétil de lei do senador tucano eduardo azeredo, um boneco de sinistros ventríloquos [gravadoras, bancos, $inhá mídia, o phoder, enfim], que está babando para tornar um fato a implantação na uébi de uma espécie de "sorria, você está sendo monitorado, gravado, rastreado, e, dependendo do nosso intere$$e, poderá ser preso".

como diz quem não gosta de ler, não perda...

não, não vai, óbvio, sair em $inhá mídia.

então...

clica aqui.

3.6.09

mondo pirata 5: black & white - and red[necks]

holas.

entonces, lá pelos 1800 e tua bisavó era virgem, imigrantes britânicos apinharam o sul e o meio-oeste estadunidenses.

foram em busca do ouro.
uns, encontraram-no aos montes.

bom pra eles, e só e fim.

outros, encontraram diamantes negros e pérolas idem.

ótimo pra nosotros todos.
cê vai ver - melhor ainda: ouvir - e entender o porquê.


desse encontro do negro com o branco resultariam, pouco depois, tons para muito além do cinza.

os britânicos que não pegaram fogo com o inclemente sol dessas regiões procriaram.

a nova geração branca da região, trabalhando na roça, exposta ao sol o dia todo, ficava com o pescoço vermelho.

rednecks, pois, como passaram a ser chamados.

mas pode chamar de caipira.

aqueles que não viram uma graça louca em continuar segregando e perseguindo negros, misturaram-se a estes e, entre hectolitros de bourbon e arrobas de carne grelhada, fundiram heranças culturais.

feitas pequenas adequações [como trocar aqueles foles do papai por sanfonas - afinal, assoprando aquilo, como iriam mascar e cuspir tabaco simultaneamente?], juntaram violinos, banjos e, especialmente para uma base rítmica simples, mas vigorosa, violões, e começaram o fuá.

nascia a cultura musical caipira do então ainda chamado "Novo Mundo".

não se ria, ó soez urbanóide.

música simples, sim, mas, por isso mesmo, fértil às mais variadas misturas - ou ocê nunca ouviu falar em bluegrass, country, folk, r&b e - tchã-rã! - rock?

um salve, pois, aos caipiras de todas as cores:

iiirrraaa!

está no ar a 5ª edição de mondo pirata - o som dos 7 mares.

hoje, black & white - and red[necks]

simbora, então, discoteclar procês.

os imigrantes britânicos levaram canções e músicas folclóricas de seus países de origem, um som bastante semelhante ao que o inglês descendente de escoceses, Paul McCartney [conhece, ou precisa apresentar?...] interpreta na faixa 1.

lá, à sombra de choças, trombaram uns camaradinhas dedilhando seus violões com diferente maestria, exatamente como faz à faixa 2 Mississipi Fred McDowell - e ponha reparo, sô, no sobrenome do camarada, o qual prova que o pai de Fred, ao contrário de McCartney, não descendeu de escoceses, mas, pertenceu a algum imigrante escocês - ou, vá saber, irlandês -, como era comum [sic] à época, quando os escravos, à guisa de título de posse, recebiam o sobrenome do sinhôzinho para o qual trabalhavam...

mas, conversando, chegaram a uns entendimentos - afinal, você, alguma vez, já viu alguém passar indiferente a um som bem tirado?

pois é.

bom exemplo do primeiro creme dessa mistura pode ser conferido na faixa 3, tirada da trilha sonora do delicioso filme dos irmãos Coen, "E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?", já representada na edição anterior de mondo pirata, dedicada ao blues.

o crédito a The Soggy Bottom Boys está incorreto, pois esse é o nome do trio que interpreta a canção no filme, composto por George Clooney [ótimo], Tim Blake Nelson [hilário] e o nunca menos que perfeito John Turturro, que fogem de um presídio, se metem nas maiores encrencas, mas conseguem se safar gravando clássicos do bluegrass.
quem, na verdade, interpreta essa canção é Dan Tyminski acompanhado pelos músicos e vocalistas da banda Union Station, que acompanha Alisson Kraus, que também deu o ar de sua graciosidade na edição anterior.

° em tempo: esse tipo de vocal floreado, em falsete, do refrão, lá é chamado yodel. aqui, tirolês.
tivemos, em tempos idos, um 'caubói' brasileiro [de Campinas] que cantava assim, o Bob Nelson [t.c.p. Nelson Pérez]; porém, ao ouvi-lo cantar assim, e ainda vestido de vaqueiro, o povão, que não perdoa, falava que ele cantava não o tirolês, mas "tira o leite"... pegou.

na faixa 4, um clássico de um filme idem, "Deliverance" ["Amargo Pesadelo"], sucesso estrondoso nos anos 70, quando Burt Reynolds e John Voight estavam no auge de suas carreiras e protagonizaram esse, digamos assim, thriller rural sensacional, o qual, que eu saiba, foi o primeiro a insinuar um estupro - entre machos, diga-se -, a partir do qual a carga dramática, misturada a muita aventura, prende o freguês a cada segundo, deixando-o sem fôlego.

tô mentindo, Jens?

permitam-se, além dessa trilha, esse filmaço.

na faixa 5, a última comentada de hoje, Johnny Cash, em "Rusty Cage".

bueno, tá tarde, tô exaurido, então o que dizer, em poucas linhas, mas sem prejuízo da informação, sobre esse bruto digno das mais altas loas?

hummm.... xô vê...

seguinte: a country music, até Johnny pintar no pedaço, era tida como música pra tocar em bodegas do tipo honky tonky, lugares chulé, frequentados por gente idem - exceto, naturalmente, as putas, que sempre terão o respeito e a admiração desse zineiro.

ou, em ambientes mais distintos, pra animar as bodas de pombinhos como Billy Boy e Thelma Beth, Tom McCoy e Bertha Rose, coisas assim, equivalentes aos nossos Maricelso e Rosameire, James Carlos e Meirianny.

aí, Cash, um dos caras mais durões da praça, mas capaz dos melhores sentimentos, pegou esse gênero e apenas elevou-o à condição de arte.

tá bão procê?

então tá.

agora, um combinado: cês vão ouvindo tudo aí, na ordem e no volume que bem entenderem [os controles do plêier permitem], aproveitem pra ouvir navegando por outros çaites de vossa preferência, e eu, a galope, volto amanhã pra continuar comentando essa edição, a qual ficará no ar pelos próximos 15 dias, está?

mão na aba do chapéu, um discreto movimento desta para o alto, e o plá: ai çi iu leirer...

° ps - a ilustra - ótima, pra variar - é do meu parceiro Bira Dantas, o pincel mais rápido de Campinas -, e mais do mesmo aqui, ó: http://ateneuhq.blogspot.com/

1.6.09

mondo pirata 4 - concluindo

holas.

não deu pra eu escrever antes a apresentação final desse set de blues que compõe a 4ª edição de mondo pirata.

bueno, cada um dá o que tem.

eu dou o som e, vez que outra, ainda que com atraso, os plás sobre este.

vocês, se quiserem, me deem ouvidos e, vez que outra, uma banana.

agora, simbora concluir a apresentação do atual programa.


na oitava faixa, o blues veste sua roupa de domingo.
Mahalia Jackson, a maior expressão do gospel e do spiritual, influenciou profundamente seguidas gerações de cantoras forjadas desde os primeiros buás em igrejas, como, por alguns exemplos, a sofisticadíssima Nina Simone, presente na faixa 7, passando pela estupenda Aretha Franklin, que está na faixa 9, chegando até whitney houston, que nunca soube muito bem a diferença entre cantar e imitar a sirene de uma ambulância, o que, claro, não é culpa/influência de Mahalia...

voltemos para o lado, digamos, profano do blues, representado nas faixas 10 e 11, 12 e 13, 14 e 15, nas respectivas interpretações de Howlin' Wolf, John Lee Hooker e Muddy Waters, que, com seus sons 'sujos', crus e vigorosos, mais seus hábitos [todos bacantes] influenciaram - aleluia! - inúmeros diabinhos do rock, muitos destes presentes nesta edição. já falarei deles.

pra se chegar ao rock, misturou-se o blues ao bluegrass, gênero já citado e explicado na primeira apresentação desta edição, e que pode ser ouvido na faixa 16, uma das muitas versões já feitas para o clássico de Dick Burnett, "Man of Constant Sorrow", presente naquela deliciosa comédia "O, Brother, Where Art Thou?" ["E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?"], que os incríveis irmãos Coen fizeram inspirados na "Ilíada", de Homero.

faixa 17: Elvis, interpretando "Steemroller Blues", prova que pode até não ser o "pai do rock" [que, já disse e repito, é Chuck Berry], mas é uma das mais bem acabadas crias da união da música negra à música caipira.

bom ouvi-lo também fora de sua praia, assim como, na faixa 25, pode-se ouvir outra fera do rock, Jimi Hendrix, trocando a guitarra pelo violão - genial, sempre - e mostrando em que fonte bebeu.

faixa 18: Bo Diddley, o mais caubói dos blueseiros, que mais influenciou os roqueiros estadunidenses [Howlin' Wolf, John Lee Hooker e Muddy Waters, não me pergunte o porquê, influenciaram mais os roqueiros britânicos], e prova disso é a faixa 19, excelente versão que os adoráveis e vigorosos caipiras do Creedence Clearwater Revival fizeram de um dos clássicos do mestre, "Before You Accuse Me", um mimo a que Bo retribuiu gravando um dos "clássicos" do CCR, "Lodi", na faixa 20.

"Night Time is the Right Time" é um dos blues mais gravados de todos os tempos, e eu, se fosse Roosevelt Sykes, o autor da jóia, babaria na botina com a versão que [de novo] o Creedence gravou, mais roqueira, assim como a eternizada por Ray Charles, blueseira, na faixa 21.

na faixa 22, "Have You Ever Loved a Woman", com Freddie King, que ensinou aos fortes como sofrer por amor, mas sem frescura.
morreu moço, 42 anos (mesma idade que tenho hoje. brrrr...), do coração, mas não por causa de uma dona, que, creiam-me os jovens e equivocados românticos, nenhuma merece tal distinção.
obeso, abusivo, coisa e tal, foi-se.

pena.

fez muito pelos negros, recusando-se a tocar em estádios e clubes que segregavam. como era muito, muito bom, pra não perder a grana da bilheteria, os produtores dos chôus cediam.
fez muito pela música, bastando dizer que influenciou, e muito, a maneira de cantar e, principalmente, de tocar do próximo batuta.

depois de ouvir Freddie King, se você, imediatamente, puser pra tocar algum disco do jovem Eric Clapton, terá a impressão de já ter ouvido aquela voz, e, ouvindo-o tocar, terá a certeza de que já conhece aquele fraseado e aqueles solos viris, ágeis.

ouvindo as faixas 23 e 24 deste set, verá que, com o tempo, o gogó de Eric assumiu estilo próprio, mais roufenho, menos cristalino; já o jeitão de tocar, apesar de um e outro toque muito particulares, não deixa dúvida que o "Deus", como afirmavam as pichações nos muros de Londres, sempre disse amém ao King.

hosanas.

os Rolling Stones têm esse nome devido à música "Rollin' Stone", de Muddy Waters - eu já escrevi sobre a influência deste e doutros nos roqueiros britânicos, não escrevi?

tão tá.
pedra que rola, papo que segue.

o comecinho dos Stones, comecinho mesmo, era um festival de blues.
o então garoto Jagger, sem a mesma crueza vocal de Howlin' Wolf e Muddy, compensava sua interpretação com incrível virilidade corporal, enquanto Keith Richards, tocando, provava estar fazendo direitinho a lição de casa, que consistia em ouvir John Lee Hooker o dia inteiro, para, de noite, reproduzir aquela pegada. não à toa, virou um craque do riff.

o resto é história.

hoje, vendo os Stones em ação, acho que Jagger virou uma caricatura de si mesmo, enquanto Richards, a cada vez em que tenta fazer aqueles seus maneirismos à guitarra, parece estar padecendo de furiosas crises de artrite...

compreensível, claro, tempo passou, patati, patatá.
só não me é compreensível que não voltem às suas origens.

Jagger, hoje, tem a voz exata, porque curtida, para o blues, e um violão às mãos de Richards seria o jeito mais fácil de vermos como tocava o lendário Robert Johnson [faixa 3 deste set].
a faixa 26, "Honest I Do", é um bom exemplo.

e olhe que, sendo parte do primeiro disco dos caras, ela tem apenas 45 anos!
imagine como ficaria hoje...

faixa 27: "Mary Had a Little Lamb".
1 minuto de silêncio para Stevie Ray Vaughan, seu genial intérprete, que, há 19 anos, morreu em um acidente de helicóptero, no qual, por muito pouco, não embarcou também Eric Clapton...

só não se pode dizer que, com a morte de Vaughan, o Texas ficou órfão de ídolos no blues porque o perolado twister Johnny Winter taí, sacudido e, como sempre, sacudindo - e, pra quem duvida, molinho de tirar a prova.

chame aquele seu tio meio banana, mas que, coitado, há tempos sofre com uma danada de uma gota, ponha a faixa 28 num volume 1 ponto acima [1 só!] acima do razoável e veja o resultado.

não, não é um ataque epilético.

pronto. agora vai lá e acende uma vela pro Winter, pra agradecer o 'milagre'.

faixa 29: se quiser continuar o tratamento, mantenha o tiozinho na sala e deixe-o curtir a sonzeira de uma das "novas" bandas mais legais, e com o nome mais legal do pedaço, Black Rebel Motorcycle Club, e vamos ver se ele não obedece ao comando "Shuffle Your Feet".

mas, atenção: se o tio cumprir o óbvio, ou seja, adorar o BRMC, só deixe-o ouvir o álbum Howl, do qual esta música faz parte, que só ficou assim, mais 'calminho', porque o baterista, à época da gravação, foi mandado embora, então os camaradinhas decidiram, em nome de uma sonoridade mais adequada, trocar as guitarras por violões, priorizando o blues, o folk rock, coisa e tal.

é, porque, 'normalmente', cada música dos carinhas é praticamente um recibo do quanto os sensacionais escoceses do The Jesus and Mary Chain influenciaram os [verdadeiros; logo, poucos] jovens roqueiros da praça.

Tom Waits, porque um dos músicos e compositores mais versáteis e criativos de todos os tempos, será figurinha fácil em mondo pirata, você verá, e melhor: ouvirá - e, ouvindo "Hang On St. Cristopher", discordar quem haverá de?

y tengo dicho.

quarta-feira, nova edição de mondo pirata.

dessa vez, derivados da mistura do blues às canções folclóricas britânicas levadas pelos imigrantes que foram para o oeste e o sul estadunidenses em busca de ouro, mas encontraram diamantes negros - logo, um set repleto de bluegrass, country, folk e, óbvio, rock.

como diz quem não gosta de ler, não perda...

hecho y hasta

° ps - já respondi a todos os comentários feitos ao programa.

19.5.09

mondo pirata 4 - continuando

holas.

continuando a apresentação do set desta edição de mondo pirata - o som dos 7 mares, toda ela dedicada ao blues.

"Strange Fruit", o nome da 6ª faixa desta edição do programa, é como os escravos dos EUA se referiam aos corpos de seus parentes e amigos que encontravam pendurados nas árvores dos ranchos em que trabalhavam, enforcados ora pelos "masters", em punição a uma tentativa de fuga, ou a algum ato que estes tomassem por insubordinação, ora pelos genocidas da ku klux klan [da qual participavam vários desses patrões...], para a qual enforcamentos eram uma espécie de lazer, ou gran finale de seus ritos de afirmação da "supremacia branca"...

esta era a canção com que Billie Holiday sempre encerrava as suas apresentações. terminada a performance, contida e elegante, recolhia-se ao camarim, sob os efusivos aplausos de uma emocionada platéia, mas não cedia aos apelos desta para que voltasse ao palco.

canja, quem quisesse, que tomasse a de galinha, e em casa.

mas, ainda que lamentasse, o público a respeitava à altura de seu apelido, "Lady".

não se tome, no entanto, o apelido como sinônimo para dondoca, pois Billie, quando preciso, sabia endurecer.

uma história, pra ilustrar.

no seu tempo, anos 40, era comum os brutos chamarem as cantoras para perto de si, para que se divertissem enfiando uma nota de 1 dólar entre as suas pernas, algo que Billie nunca aceitou, e devia impor-se de uma maneira convincente o bastante para evitar a truculência do freguês [mas sem perder a compostura. aquela força silenciosa, manja?]. agora, se violência ocorresse, ela também tiraria de letra - afinal, dos muitos amantes que teve, elegeu o saxofonista Lester Young o seu dileto, porque ele sabia exatamente como lhe dar as coças que a excitavam, mas, ao contrário de outros, mais desatentos, Lester, que era do meio, não lhe acertava o rosto, pensando nas apresentações que "Lady" - apelido dado por ele, diga-se - tinha de fazer nos dias seguintes.

ela adorava esse seu misto de, digamos, cortesia e profissionalismo...

resumindo, um homem podia fazer de tudo com Billie, mas desde que com o seu consentimento, e ela não via razão alguma, pessoal ou profissional, para deixar estranhos enfiarem dólares entre as suas pernas, até porque...

Billie picava-se de heroína todos os dias. com o tempo, suas veias e canudos para refresco tinham igual consistência; logo, não mais podia picar-se nestas.
por um período, picou-se nos dedos dos pés, mas isso comprometia-lhe os movimentos; então, só lhe restou uma alternativa: picar-se nos lábios vaginais.

chegava em casa após o trabalho, picava-se, fazia uma faxina completa, preparava um lauto jantar - era boa com as colheres e caçarolas - para a companhia da madrugada [um cavalheiro, se estivesse em um dia de Billie, ou uma dama, caso estivesse em um dia de "Willie", que é como se apresentava às mulheres que lhe despertavam atração - não raro, tipos angelicais].
depois, fechando a noite bacante, sexo, muito, pois suas sarças ficavam em brasa com a trilha sonora de todos os dias: os bolachões 78 rpm de Louis Armstrong, presente nesta edição, na 5ª faixa.

ooooh, yeaaaah...

continua amanhã.

hasta.

° ps - pra facilitar [para mim], responderei aos comentários ao final da apresentação do set, está?

18.5.09

mondo pirata 4: black & white - & blues

holas.

o grande vencedor da última edição do grammy foi o disco Raising Sand, gravado pela cantora e violinista estadunidense Alison Krauss juntamente com o ex-vocalista da banda inglesa Led Zeppelin, Robert Plant - que, diga-se, fisicamente, está cada vez mais Wanderléa, só faltando cantar "Pare o Casamento"... -, e comum a ambos, além das esvoaçantes melenas doiradas, a raiz de sua influência musical, o BLUES, ao qual é dedicada esta edição de mondo pirata - o som dos 7 mares.

Alison Krauss, que abre a programação desta edição, é um dos atuais expoentes do bluegrass, gênero derivado do blues, ao qual imigrantes britânicos radicados nos EUA misturaram as suas músicas folclóricas, resultando numa música simples, mas que, precisamente por essa simplicidade de sua base, tornou-se um prato feito para o acréscimo de outros ingredientes que, combinados, tornaram-se muito apetitosos, mas sobre estes conversaremos depois.
nesta faixa, no entanto, Alison deixou o bluegrass de lado para, acompanhada pelos backing vocals da Union Station, sua banda, mais as afinadíssimas Kossoy Sisters, prestar um tributo à raiz do blues, as work songs, canções que os escravos das lavouras de algodão e milho entoavam para aplacar um bocadinho o banzo sentido por Mama África, bem como o sofrimento pelo trabalho duro que lhes era imposto.

tá, falta à interpretação de Alison a legitimidade da dor - e, logo, da emoção - embutida na voz da turma que deu origem à série [afinal, o único algodão que a Alison coube colher foi, talvez, um algodão-doce, nalguma festa de caubóis], mas, você verá, não se lhe pode negar beleza.

na sequência, Wanderléa Plant, digo, Robert Plant e chapas de Zeppelin passam recibo da influência maior da banda, interpretando uma estupenda versão de "Traveling Riverside Blues", um dos clássicos do mito presente na 3ª faixa.

não se pode dizer que o estadunidense Robert Johnson, nascido no Mississipi, é o pai do blues, porque isso faria o bom Charley Patton revirar-se na cova, mas pode-se afirmar que é o avô do rock (o pai, sabemos, foi Chuck Berry), tendo entre seus virtuosos netinhos Keith Richards, Eric Clapton, Jeff Beck, Jimmy Page, entre muitos outros, para os quais, ali, na batata, ninguém tocou uma guitarra como Johnson, tenha este feito ou não o tão famoso "pacto com o demônio", no qual o Danado, em troca de sua alma, teria afinado seu instrumento de maneira que poderia tocar o que e como bem entendesse, pelo que alcançaria o tão desejado sucesso - e este, com ou sem interferência do 7 Peles, veio, mas Johnson, charmoso e elegante, hedonista do chapéu às polainas, quando no miserê já era um perigo [para as mulheres, para os pais destas - e para os maridos, também... -, para o seu fígado, enfim, para si próprio]; na bonança, então...

morreu moço [27 anos], não se sabe ao certo se vítima de seus muitos excessos, ou, versão mais comum, se assassinado pelo enciumado marido de uma dama à qual apresentou o seu desassossegado 'periquito', pelo que teve envenenado o seu bourbon.

lendas, lendas...

muito já se ouviu dizer sobre Robert Johnson, mas melhor mesmo é ouvir sua música, quer interpretada por seus talentosos admiradores, quer pelo próprio [faixa 3].

° em tempo: antes que alguém diga algo do tipo "ah, mas isso, esse jeito de tocar, é igual ao de todo mundo no blues", é bom lembrar, contextualizando: "isso", esse jeito, foi ele quem criou...

quem também morreu cedo, em 1937, aos 43 anos, e ainda de forma estúpida, foi Bessie Smith [faixa 4], também conhecida como a Imperatriz do Blues, após sofrer um gravíssimo acidente de carro numa cidadezinha ao sul dos EUA, na qual, para azar maior de Bessie, o único hospital se recusava a atender negros...

melhor sorte teve a humanidade, pois Bessie, apesar da brevidade de sua vida, quando não estava cantando, não satisfeita em meter-se em encrencas "apenas" por ser negra, meteu-se em bafafás outros, sendo uma das primeiras mulheres a levantar bandeira por igualdade sexual [era bissexual assumida].
de lambuja, ainda reinventou o blues, incorporando-lhe um recurso comum ao jazz: o improviso, normalmente sob a forma de vocalises que emitia em contraponto à base musical, o que influenciou bastante o próximo batuta.

Louis Armstrong foi um músico de talento tão imenso que é inadmissível que uns e outros, com argumentos distintos, limitem-se - e, pior, limitem-no - a avaliações baseadas na superfície de sua obra.

de um lado, os filisteus teleguiados, para os quais ele é "aquele negão da música 'uara ãnderfol ordi', que tocava naquela propaganda"; do outro, os puristas, esses falsos sofisticados e legítimos patetas para os quais, ao prestar-se ao papel de entertainer de platéias brancas e ricas, "Satchmo" tornou-se um homem rico, mas sua música, de forma diretamente proporcional, empobreceu.

comum aos dois tipos de imbecil, pra variar, a inguinorança...

aos últimos não ocorreu pensar - ou, mais fácil ainda, perceber - o que o "cooptado" Armstrong fez não só pelos negros, mas, igualmente, pela música.
como cidadão, ao ceder um pouco à obtusidade da platéia endinheirada, tocando o que esta queria ouvir para parecer inteligente e sofisticada, abriu as portas de todos os salões e clubes dos EUA para todos os negros, tirando-os do híbrido de clube e gueto que era o Cotton Club [bom lembrar que nem mesmo Duke Ellington, músico de charme e sofisticação pessoal e profissional evidentes o bastante para lhe valerem o nobre apelido que adotou como prenome, era aceito nos ambientes brancos requintados...].

ponto.

como músico, inteligente e sagaz que era, entre uma e outra "La Vie en Rose", "When the Saints Go Marching In" e, claro, "What a Wonderfull World", educava e lapidava o gosto do freguês, encaixando aqui uma "Saint Louis Blues" [para uns, a pedra de fundação do gênero, de autoria do aqui já citado Charley Patton], mandava ver ali uma "Basin Street Blues", arrasava acolá com uma "Potato Head Blues" - que, por sinal, é a 5ª faixa deste set -, e o público lá, adorando tudo, inclusive o creme de sua música.

ponto final.

paro por aqui, pra você se lambuzar com esses e outros cremes.
amanhã, nova postagem, apresentando o restante do escrete.
assim, não só você poderá continuar navegando por páginas outras ao som de mondo pirata, como cumprirá uma regra que o lendário Robert Johnson gostava de passar ao público:

- "To know, first you must feel".

essa, claro, é mais uma lenda que eu acabei de inventar...

mas, e daí?

primeiro, que eu já entreguei a farsa, e, last but not least, o que importa não é o que eu digo, inventando ou não, mas 'apenas' o que essa cambada toca e canta.
entonces, permita-se.

hasta.

ps - a ilustração é do Bira Dantas, artista gráfico de gênio, meu kmaradinha e - adivinhe? - blueseiro. toca uma gaita nervosa pra dedéu.
linque de acesso ao blogue dele aí ao lado, no menu.